O mercado financeiro opera em ciclos contínuos de expansão e retração, movimentando-se ao sabor das variáveis económicas, políticas e, sobretudo, das flutuações da psicologia coletiva dos participantes. No jargão financeiro global, a expressão utilizada para caracterizar um período prolongado de otimismo generalizado, forte valorização dos ativos e confiança inabalável dos investidores é o Bull Market (mercado de alta).
Identificar o início, o desenvolvimento e os excessos deste ciclo é vital para que investidores e analistas consigam capturar ganhos patrimoniais substantivos sem se exporem a riscos catastróficos de capital.
A Origem e Caracterização do Bull Market
A etimologia mais amplamente aceite para o termo remete para a forma de ataque do touro (*bull*, em inglês). O touro ataca os seus opositores desferindo um golpe de baixo para cima com os seus chifres, num movimento ascendente que simboliza graficamente a trajetória de subida contínua das cotações nas bolsas de valores.
Em termos formais, embora não haja uma regra científica estrita, o mercado tende a declarar a vigência de um Bull Market quando os principais índices bolsistas de um país registam uma valorização sustentada superior a 20% a partir de um fundo histórico recente.
As características estruturais de um mercado de alta incluem uma forte expansão dos múltiplos de avaliação das empresas (como o rácio Preço/Lucro), um aumento maciço no volume financeiro negociado diariamente nas bolsas, uma proliferação de Ofertas Públicas Iniciais (IPOs) de empresas que procuram capitalizar-se a avaliações elevadas e uma cobertura mediática predominantemente positiva, que atrai o interesse do público geral não especializado.
As Três Fases de um Mercado de Alta
De acordo com os postulados clássicos da Teoria de Dow, um Bull Market desenvolve-se tipicamente ao longo de três fases comportamentais e operacionais distintas:
- Fase de Acumulação: Ocorre no final de um mercado de baixa severo, num momento em que o pessimismo ainda impera no público geral e os preços dos ativos se encontram deprimidos. Investidores institucionais de longo prazo e com elevado nível de sofisticação (conhecidos como *smart money*) percebem que as avaliações estão excessivamente baratas face aos fundamentos reais das empresas e começam a comprar ações discretamente.
- Fase de Participação Pública: À medida que os indicadores macroeconómicos começam a demonstrar melhorias efetivas e os lucros das empresas voltam a crescer, a tendência de alta ganha contornos evidentes. Analistas de mercado elevam as suas recomendações, o risco percebido diminui e o investidor de varejo começa a ingressar progressivamente no mercado, acelerando a valorização dos ativos.
- Fase de Excesso ou Euforia: É o ápice do ciclo de alta. O otimismo transforma-se em euforia desmedida. Instala-se o fenómeno do FOMO (*Fear of Missing Out*, ou o medo de ficar de fora da festa de valorização). Investidores sem experiência alocam capitais que não poderiam perder, especuladores utilizam alavancagem excessiva e qualquer notícia, por mais irrelevante que seja, é interpretada como um catalisador de novas altas. As avaliações perdem contacto com a realidade matemática dos fluxos de caixa futuros.
Um dos maiores riscos psicológicos enfrentados por um investidor durante um Bull Market maduro é o viés de autoatribuição. Numa maré montante em que quase todas as ações sobem independentemente da qualidade da gestão da empresa, é fácil confundir a liquidez e a tendência generalizada do mercado com competência pessoal de análise financeira. Esta ilusão de infalibilidade reduz a perceção de risco e abre caminho para erros fatais de sobrenalocação de capital.
Como o Investidor Deve Agir Durante um Bull Market
A sobrevivência patrimonial de longo prazo exige que o investidor adote uma postura disciplinada e metódica em mercados de alta, evitando ser arrastado pelas vagas de entusiasmo coletivo:
- Manutenção do Rebalanceamento Periódico: Se a valorização expressiva das ações elevou a participação da renda variável na sua carteira muito acima do percentual estipulado na sua política de investimentos originária, o investidor deve efetuar vendas parciais desses ativos sobreavaliados e realocar o capital em ativos de renda fixa ou em classes que ficaram atrasadas, forçando a venda na alta e a preservação do lucro.
- Foco Rigoroso na Margem de Segurança: Não abandone os critérios fundamentais de avaliação. Evite comprar empresas que não geram lucros ou FIIs que negociam com prémios excessivos sobre o seu Valor Patrimonial Líquido, por mais atraente que seja a narrativa de curto prazo que os envolve.
- Construção de Caixa Estratégico: Manter uma parcela do património líquida e disponível permite ao investidor ter poder de compra para aproveitar as excelentes oportunidades que surgirão inevitavelmente quando o mercado corrigir ou inverter o ciclo para um mercado de baixa (*Bear Market*).
Referências e Leituras Recomendadas:
- SHILLER, Robert J. Irrational Exuberance. 3ª Edição. Princeton University Press, 2015.
- MARKS, Howard. O Mais Importante para o Investidor: Lições de um Gênio do Mercado Financeiro. Editora Sextante, 2020.
- RHEA, Robert. The Dow Theory. Barron's, New York, 1932.